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30.5.13

Liberdade amordaçada (5) - Governo argentino mira o papel jornal para controlar a imprensa

Sob ameaça de expropriação de fábrica, diários temem interferência e chavismo

Para mostrar como as restrições à liberdade de expressão e a intervenção do governo argentino em vários setores afetam o país, O GLOBO iniciou no domingo a série de reportagens intitulada “Liberdade Amordaçada”. Os textos estão sendo compartilhados com mais dez jornais da América Latina que, como O GLOBO, integram o Grupo de Diarios América (GDA).

Janaína Figueiredo
Correspondente do GLOBO/GDA

BUENOS AIRES - Há cerca de três anos, o secretário de Comércio Interior argentino, Guillermo Moreno, o mesmo funcionário que está à frente da intervenção no Indec (o IBGE local) e da campanha contra meios de comunicação privados, principalmente o grupo Clarín, assegurou durante uma reunião de diretores da empresa Papel Prensa, que fornece papel a 95% dos jornais argentinos, que tinha em mãos um plano para transferir o controle da companhia ao Estado. Fiel a seu estilo pouco diplomático, Moreno assegurou que se algum membro da diretoria revelasse o que estava sendo discutido, seria vítima “de meus rapazes, especialistas em quebrar colunas”. As ameaças do funcionário foram denunciadas por Carlos Collaso, a época integrante do Conselho de Vigilância da Papel Prensa, mas nada aconteceu.

As pressões do governo Kirchner sobre a empresa, administrada pelo Clarín (49%), La Nación (22,6%) e o Estado (28%), foram constantes e alcançaram seu auge este mês, com a apresentação de um projeto de lei que prevê a expropriação de 24% das ações da companhia.

Se o documento, assinado pelos deputados ultrakirchneristas Diana Conti (a mesma que defende uma terceira reeleição da presidente Cristina Kirchner, porque não faz sentido uma “alternância boba” no poder) e Carlos Kunkel, entre outros, virar lei, o Estado passará a administrar 52% das ações da Papel Prensa e terá, como o presidente Juan Domingo Perón em seus primeiros dois governos (1946-1955), total controle do papel usado pelos jornais.

No segundo governo de Cristina (iniciado em dezembro de 2011), foi aprovada uma lei que deixou em poder do Estado as autorizações para importar papel. Se o novo projeto dos kirchneristas também obtiver sinal verde do Parlamento, o Estado poderá, ainda, comandar a produção, comercialização e distribuição do papel jornal.

Nos anos 40 e 50, com Perón em seu momento de glória, alguns jornais como “La Nación” circularam com apenas seis páginas (na época, não havia fabricação, apenas importação). As semelhanças com o passado causam profunda preocupação entre jornalistas locais.

— Moreno passaria a controlar o papel dos jornais e poderia condicionar a entrega do papel à posição de nossos jornais sobre políticas do governo — disse o diretor de Negócios do “La Nación”, Eduardo Lomanto.

Para ele, o projeto de lei 26.736 não tem qualquer lógica econômica, porque hoje o preço do papel de jornal está caindo na Argentina e no mundo, e “ninguém tem dificuldade de acesso, não se justifica uma intervenção estatal”.

— Estamos vendo coisas que jamais pensamos que veríamos. As semelhanças com a Venezuela são cada vez mais evidentes. O que nos diferencia é que a Justiça não perdeu total independência e ainda existe meios também independentes —afirmou Lomanto.

O projeto oficialista também gera temor em jornais como o “El Cronista”, que importa 100% do papel que usa e já enfrenta restrições com a lei sobre compras externas. Desde que estão vigentes as novas medidas, explicou o diretor de redação, Fernando González, “não podemos mais estocar papel, como fazíamos antes, para aproveitar momentos em que o preço está mais baixo. Somos obrigados a respeitar uma cota máxima”. González concorda com Lamonte sobre o risco de caminhar para um modelo cada vez mais parecido ao venezuelano.

— É muito perigoso que o Estado tenha o controle total do papel usado pelos jornais — frisou o diretor do “El Cronista”.

A Papel Prensa foi comprada pelos jornais “Clarín”, “La Nación” e “La Razón” (que depois vendeu sua parte), em 1977, à família Graiver. Na época, a empresa ainda não estava pronta e os três jornais tiveram de investir cerca de US$ 70 milhões para terminar as obras de construção da fábrica (o temor é que, como no caso da Aerolíneas Argentinas e Repsol-YPF, uma eventual expropriação não inclua qualquer tipo de indenização).

A aquisição da companhia foi questionada pela Casa Rosada em 2010, quando o governo denunciou a suposta participação dos três diários na perseguição a membros da família Graiver durante a última ditadura (1976-1983). Na época, a versão oficial da história foi negada por Isidoro Graiver, irmão de David Graiver, anterior dono da empresa (já falecido), e Sol, sua filha.

A denúncia do governo K foi respaldada por Lidia Papaleo, viúva de David Graiver, que, em conversa com Julio Saguier, dono do “La Nación”, confessou ter recebido uma oferta de US$ 2 milhões por parte do Executivo para falar (leia-se confirmar a história contada pela Casa Rosada) sobre a venda da Papel Prensa. Uma parte do pagamento, explicou Lidia no encontro com Saguier, estaria condicionada ao resultado de um processo judicial iniciado pelo governo nos tribunais da cidade de La Plata, ainda aberto.

— Nada do que foi denunciado pelo governo foi provado. Isidoro e Sol desmentiram a versão oficial. Os Graiver jamais nos acusaram de nada em nenhum dos processos dos quais participaram pelos sequestros e torturas sofridas — assegurou o diretor de negócios do “La Nación”.

De fato, após o retorno da democracia, os Graiver foram acusados de serem vinculados ao movimento Montoneros (braço armado da esquerda peronista) e esse foi, de acordo com todos os processos judiciais nos quais foram mencionados, o motivo de sua perseguição por parte dos militares.

O objetivo da Casa Rosada era que o “Clarín” e o “La Nación” fossem condenados por suposta cumplicidade com os militares para obrigar a família a vender a Papel Prensa. Com o processo ainda na Justiça e com poucas possibilidades de prosperar, dada a falta de provas, surgiu o projeto de expropriação da companhia.

— O objetivo de Moreno sempre foi ficar com a empresa. Há quase quatro anos somos alvo de um assédio permanente — disse Martin Etchevers, gerente de comunicações do grupo Clarín.

Ele lembrou que, ao longo de todo este período, a dona do grupo, Ernestina Herrera de Noble, também foi acusada de ter se apropriado de filhos de presos políticos desaparecidos.

O caso também continua aberto na Justiça, apesar de não ter sido encontrada qualquer prova sobre o vínculo de seus dois filhos adotivos, Marcela e Felipe, com desaparecidos políticos.
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ENTREVISTA A JORGE LANATA: 

‘Do ar não poderão metirar nunca’

Apresentador vem denunciando casos de corrupção envolvendo o governo Kirchner

Janaína Figueiredo
Correspondente do GLOBO/GDA

Buenos Aires Com as denúncias de corrupção, o programa “Jornalismo para Todos” conseguiu ter mais audiência que o campeonato nacional de futebol (transmitido pela TV estatal no mesmo horário). Desde então, as pressões contra o Clarín, ao qual pertence o canal 13 de TV, que transmite o programa, se intensificaram e surgiram rumores de intervenção.

Circulam rumores sobre uma intervenção no grupo Clarín e foi apresentado no Congresso o projeto de expropriação da empresa Papel Prensa. O senhor acha que ambas iniciativas serão aplicadas?

Expropriar a Papel Prensa não tenho dúvidas, o governo deverá fazer o possível para aprovar o projeto no Congresso nas próximas semanas. Intervir no Clarín teria um custo alto, porque seria uma medida absurda que certamente provocaria uma reação social, mas tudo pode ser. Este governo quando perde poder não recua, pelo contrário, redobra a aposta.

Seria a única maneira de tirar seu programa do ar...

(Risos) Sim, seria. Mas do ar não poderão me tirar nunca, continuarei falando até em festas de 15 anos. Não vão nos calar.

O senhor sabe que hoje é o maior pesadelo de Cristina?

(Risos) Posso imaginar.

Quando foi a última vez que esteve com a presidente?

Estive mais vezes com Néstor. A última vez que vi Cristina foi durante a campanha eleitoral de 2003. Naquela época, eles me ligavam pedindo para vir a meu programa de TV. Eram outros tempos.

Imaginou o que viria depois?

Não, e me arrependo de não ter dado bola às pessoas que me diziam que eles fariam no país a mesma coisa que fizeram em Santa Cruz, controlar a mídia, a Justiça, enfim, tudo.

Muitos já falam no fim do kirchnerismo, o que viria depois?

Acho que este peronismo será derrotado por um peronismo de direita. Porque, mesmo que seja mentira, no imaginário, o governo representa o progressismo e isso dificulta as possibilidades dos partidos de esquerda e centro-esquerda. Quem pode derrotá-los? Alguém com um discurso conciliador. Isso seria Scioli (governador de Buenos Aires), De la Sota (governador de Córdoba) ou Massa (prefeito do município de Tigre, na província de Buenos Aires).

O senhor acredita que outros governadores começarão a se distanciar do governo?

O peronismo funciona de uma maneira muito simples, a mesma coisa aconteceu na época de Menem. Eles se alinham com os que têm o poder. Vão onde está o poder e hoje muitos estão com um pé fora do barco.

Como é Cristina?

Uma pessoa estranha, que não tem amigas, tem um relacionamento complicado com sua família e não ouve ninguém. Ninguém diz nada a Cristina, todos ouvem Cristina. É uma pessoa que tem pouca conexão com o povo. A vejo cada vez mais autista, não registra o que está acontecendo a seu redor.